Piazote que não aceita cabresto,
criado na prisão da cidade,
sonhava na pouca idade
ser livre na vida do campo.
Não sei ao certo o que pensar
mas acho que nasce com a gente
essa paixão ardente,
de viver com liberdade.
Nos finais de semana,
lá sei ia o vivente
pra invernada ser peão.
Ansiava aprender a lida,
acalentar seu anseio,
ao ginetear cavalo alheio,
cultivar a semente,
das raízes desse chão.
Mas isso não lhe bastava,
queria andar pelo pago
montado em seu animal.
Buenas! De tanto insistir
tenho que admitir
que o guri conseguiu o que quis.
Uma tordilha com encilha e tudo,
deixou o piá quase mudo,
do orgulho que sentiu do pai.
Êta animal macanudo!
Daqueles que da gosto montar.
Pilcha novita, também a encilha,
durante a semana Farroupilha,
o guasca e sua tordilha,
brioso se viu desfilar.
Está certo, era só um piazote!
Mas é de pequeno garrote
que o futuro de um taura
se mostra pra toda a gente.
Um guri, um cusco e uma tordilha,
galgando da vida a coxilha.
E assim se passou o tempo!
O amor por aquele animal
era quase descomunal.
Mas eis que malevo e soteiro
o destino se fez companheiro
e resolveu de um jeito matreiro
semear pelo pampa o mal.
Pobre piazote!
Contrariando a vontade do pai
que disse pro guri - não vai.
Eita guri aporreado!
De certo entendes o que falo.
Mal sabia que nesse dia
com sua égua tordilha
seria o último piálo.
Fulgêncio se foi pra invernada,
galopar nos grotões da canhada.
Mas porque não me deixas ir?
Tens certa razão, preciso admitir,
mas para um peão se criar,
essas cousas precisa enfrentar.
O motivo era nobre, admito!
O piá deu de rédeas no animal
e se lançou pro matagal
em busca do boi da infância,
num galope descomunal.
De repente, o susto!
Soltou da garganta um grito
por causa do boi de osso,
ao errar o passo na vala,
a égua quebrou o pescoço.
Ah, destino malevo!
Alí, revesguiada de costas na vala,
a tordilha parece que fala:
Me perdoa, piazito,
agora preciso me ir.
Já ouço de longe o apito
do trem que ruma pro infinito.
Assim despede o xirú,
a companheira de cavalgada,
no brejal da invernada.
Agora restam apenas
um guri e um cusco,
atucanados subindo a coxilha,
trazendo nas costas a encilha,
que era da égua tordilha.
Rudimar Hauenstein
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