Aconteceu no
entardecer do século XVI em uma fazenda de engenho no nordeste do país.
Vicente,
filho do Coronel Teodoro nasceu no conforto da casa grande, rodeado de
paparicos e anunciado como futuro senhor de escravos e herdeiro de enormes
fazendas de cana de açúcar. Nessa mesma época uma escrava, cozinheira da casa
do Coronel, deu a luz na sombria e desumana senzala a uma menina chamada
Teresa.
Sua
mãe, negra Anastácia, era formosa e gozava de certas regalias da parte do
Coronel, assim obteve permissão de levar com ela sua filha enquanto trabalhava
na casa grande. O menino Vicente tinha em Teresa, a única criança que lhe era
permitido contato. Ele estava proibido de se misturar com os outros negrinhos
filhos de escravos que moravam na senzala.
Três
anos depois nasceu Sinhazinha, a filha do coronel. Nos anos seguintes as três
crianças eram vistas todos os dias brincando nos jardins da casa grande.
Quando
atingiu idade de estudar, Vicente foi mandado para um colégio interno até se
formar advogado. Durante esses anos, sempre que fosse possível retornava para a
fazenda, ansioso pelas férias, para estar com Teresa. O tempo
passou e os laços entre Vicente e Teresa foram se estreitando. Até que aos 24
anos, após ter concluído seus estudos, o rapaz se deu conta que estava
apaixonado por Teresa.
O
Coronel ao descobrir ficou enlouquecido. Ordenou que fosse proibida a entrada
da jovem na casa grande e Vicente de ir até as senzalas.
- Tinha que dar
nisso! Meu filho, um Doutor, apaixonado logo por uma negra. Que vergonha para a
nossa família e diante dos meus amigos, os Senhores de Engenho, esbravejava o
Coronel enquanto andava com as mãos cruzadas nas costas de um lado para o outro
da sala.
Você
jamais deverá relar com essa negrinha, ouviu bem? Se tocar nela irás te ver
comigo.
Vicente, sentado em uma cadeira, cabisbaixo, apenas ouvia o sermão do pai sem
nada falar. Ele preferia morrer a deixar de estar com sua amada. Nessa altura
já arquitetava um plano de fuga, pois sabia que seu pai era irredutível e
jamais voltou atrás em sua palavra. Nada dos bens que o Coronel possuía
interessava a Vicente. Tudo o que desejava era a Teresa, dizendo que a vida sem
ela não fazia sentido.
Passados alguns dias, ajudado por Sinhazinha, Vicente conseguiu se encontrar às
escondidas com Teresa, nas sombras das matas que ladeavam um pequeno riacho nos
fundos da fazenda. Deixaram tudo acertado. Á noite, durante as tradicionais
cantorias dos negros para comemorar o término da safra, fugiriam para São Paulo
onde iriam viver na fazenda de um ex-colega dos tempos de internato.
Eles
não sabiam que nessa mesma noite alguns escravos haviam planejado fugir para os
Palmares. Corria a noticia que nesse lugar vivia o grande guerreiro e líder
negro, Zumbi. O sonho de todo escravo era fugir da escravidão viver com
liberdade nas terras dos Palmares.
Quando
chegou a hora marcada, raios riscavam a noite anunciando uma grande tempestade.
Teresa
saiu escondida da senzala e seguiu correndo para o local de encontro. Quase ao
mesmo tempo os escravos iniciaram sua fuga. Chovia e Teresa carregava sobre os
ombros um xale.
Quando
a fuga dos negros foi descoberta o alvoroço foi total. Na fuga dentro da mata,
Teresa não percebeu que sua vestimenta ficara trancada num galho enquanto
fugia. Uma negra que vinha logo atrás pegou o xale e sumiu escuridão adentro.
Na
senzala, enraivecido, o Coronel transmitia ordens aos berros para seus capachos
mestiços, responsáveis pelos escravos:
- Tratem de
recapturar esses fujões. Aos que resistirem vocês tem ordem de matar. Que isso
sirva de exemplo para que os outros não tentem fazer o mesmo.
A
perseguição teve início e algum tempo mais tarde ouviam-se os primeiros
disparos efetuados pelos caçadores de escravos. Vicente a essa altura seguia
para o local de encontro. No breu da noite acabou tropeçando em algo que o fez
cair estatelado no chão. Era um corpo de mulher segurando entre as mãos o xale
que ele dera de presente para sua amada. Enganado, imaginou que fosse Teresa. A
dor foi insuportável. Desesperado pegou o revólver e disparou contra seu peito.
Sem sua amada, preferiu morrer junto a ela.
Mas
Teresa, escondida em uma pequena gruta, esperava que os perseguidores se fossem
para então seguir até o local de encontro perto dali. Quando os disparos se
distanciaram seguiu até o lugar marcado. Esperou por algum tempo, e como
Vicente não apareceu, resolveu voltar para casa.
O dia
amanhecia. Durante o regresso encontrou no caminho o corpo de Vicente estendido
no chão da sombria floresta. Agora descobriu por que ele não fora se encontrar
com ela.
Teresa
agarrou-o contra o peito e aos prantos exorcizou sua profunda dor. Vendo seu
xale ensangüentado junto ao corpo, deduziu que Vicente a teria confundido, no
escuro, com a escrava morta que estava ao lado. “Meu amado se matou por não
suportar a dor de viver sem mim. Também não suportarei viver sem ele, pensou”.
Em seguida retirou a arma que Vicente ainda segurava entre os dedos e disparou
contra seu peito.
Ainda
hoje, em noites de tempestades e raios, contam os mais velhos, que naquela
região pode se ouvir no barulho do vento, o lamento da dor dos amantes.
No dia
seguinte, despido de sua arrogância, o Coronel enterrou seu filho Vicente e sua
filha Teresa.
Rudimar
Hauenstein
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