terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amor e sangue


Aconteceu no entardecer do século XVI em uma fazenda de engenho no nordeste do país.
   Vicente, filho do Coronel Teodoro nasceu no conforto da casa grande, rodeado de paparicos e anunciado como futuro senhor de escravos e herdeiro de enormes fazendas de cana de açúcar. Nessa mesma época uma escrava, cozinheira da casa do Coronel, deu a luz na sombria e desumana senzala a uma menina chamada Teresa.
   Sua mãe, negra Anastácia, era formosa e gozava de certas regalias da parte do Coronel, assim obteve permissão de levar com ela sua filha enquanto trabalhava na casa grande. O menino Vicente tinha em Teresa, a única criança que lhe era permitido contato. Ele estava proibido de se misturar com os outros negrinhos filhos de escravos que moravam na senzala.
   Três anos depois nasceu Sinhazinha, a filha do coronel. Nos anos seguintes as três crianças eram vistas todos os dias brincando nos jardins da casa grande.
   Quando atingiu idade de estudar, Vicente foi mandado para um colégio interno até se formar advogado. Durante esses anos, sempre que fosse possível retornava para a fazenda, ansioso pelas férias, para estar com Teresa.   O tempo passou e os laços entre Vicente e Teresa foram se estreitando. Até que aos 24 anos, após ter concluído seus estudos, o rapaz se deu conta que estava apaixonado por Teresa.
   O Coronel ao descobrir ficou enlouquecido. Ordenou que fosse proibida a entrada da jovem na casa grande e Vicente de ir até as senzalas.
- Tinha que dar nisso! Meu filho, um Doutor, apaixonado logo por uma negra. Que vergonha para a nossa família e diante dos meus amigos, os Senhores de Engenho, esbravejava o Coronel enquanto andava com as mãos cruzadas nas costas de um lado para o outro da sala.
   Você jamais deverá relar com essa negrinha, ouviu bem? Se tocar nela irás te ver comigo.
   Vicente, sentado em uma cadeira, cabisbaixo, apenas ouvia o sermão do pai sem nada falar. Ele preferia morrer a deixar de estar com sua amada. Nessa altura já arquitetava um plano de fuga, pois sabia que seu pai era irredutível e jamais voltou atrás em sua palavra. Nada dos bens que o Coronel possuía interessava a Vicente. Tudo o que desejava era a Teresa, dizendo que a vida sem ela não fazia sentido.
   Passados alguns dias, ajudado por Sinhazinha, Vicente conseguiu se encontrar às escondidas com Teresa, nas sombras das matas que ladeavam um pequeno riacho nos fundos da fazenda. Deixaram tudo acertado. Á noite, durante as tradicionais cantorias dos negros para comemorar o término da safra, fugiriam para São Paulo onde iriam viver na fazenda de um ex-colega dos tempos de internato.
   Eles não sabiam que nessa mesma noite alguns escravos haviam planejado fugir para os Palmares. Corria a noticia que nesse lugar vivia o grande guerreiro e líder negro, Zumbi. O sonho de todo escravo era fugir da escravidão viver com liberdade nas terras dos Palmares.
   Quando chegou a hora marcada, raios riscavam a noite anunciando uma grande tempestade.
  Teresa saiu escondida da senzala e seguiu correndo para o local de encontro. Quase ao mesmo tempo os escravos iniciaram sua fuga. Chovia e Teresa carregava sobre os ombros um xale.
   Quando a fuga dos negros foi descoberta o alvoroço foi total. Na fuga dentro da mata, Teresa não percebeu que sua vestimenta ficara trancada num galho enquanto fugia. Uma negra que vinha logo atrás pegou o xale e sumiu escuridão adentro.
   Na senzala, enraivecido, o Coronel transmitia ordens aos berros para seus capachos mestiços, responsáveis pelos escravos:
- Tratem de recapturar esses fujões. Aos que resistirem vocês tem ordem de matar. Que isso sirva de exemplo para que os outros não tentem fazer o mesmo.
   A perseguição teve início e algum tempo mais tarde ouviam-se os primeiros disparos efetuados pelos caçadores de escravos. Vicente a essa altura seguia para o local de encontro. No breu da noite acabou tropeçando em algo que o fez cair estatelado no chão. Era um corpo de mulher segurando entre as mãos o xale que ele dera de presente para sua amada. Enganado, imaginou que fosse Teresa. A dor foi insuportável. Desesperado pegou o revólver e disparou contra seu peito. Sem sua amada, preferiu morrer junto a ela.
   Mas Teresa, escondida em uma pequena gruta, esperava que os perseguidores se fossem para então seguir até o local de encontro perto dali. Quando os disparos se distanciaram seguiu até o lugar marcado. Esperou por algum tempo, e como Vicente não apareceu, resolveu voltar para casa.
   O dia amanhecia. Durante o regresso encontrou no caminho o corpo de Vicente estendido no chão da sombria floresta. Agora descobriu por que ele não fora se encontrar com ela.
   Teresa agarrou-o contra o peito e aos prantos exorcizou sua profunda dor. Vendo seu xale ensangüentado junto ao corpo, deduziu que Vicente a teria confundido, no escuro, com a escrava morta que estava ao lado. “Meu amado se matou por não suportar a dor de viver sem mim. Também não suportarei viver sem ele, pensou”. Em seguida retirou a arma que Vicente ainda segurava entre os dedos e disparou contra seu peito.
   Ainda hoje, em noites de tempestades e raios, contam os mais velhos, que naquela região pode se ouvir no barulho do vento, o lamento da dor dos amantes.
   No dia seguinte, despido de sua arrogância, o Coronel enterrou seu filho Vicente e sua filha Teresa.
 

                                                    Rudimar Hauenstein
        




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