quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Pesadelo


          — Isso são horas e local para me deixar na mão? — Reclamei indignado, formulando essa pergunta em voz alta para o meu carro, após uma pane que me deixou em uma estradinha de terra a cerca de vinte quilômetros da cidade.
         Era uma região com muitas elevações, na verdade, morros arredondados pela erosão sofrida durante milhões de anos. Sou Rodrigo, engenheiro que no auge da minha carreira trabalhava no traçado de uma nova rodovia que seria construída a partir do início da década de noventa.
        Abri o capô do carro e enquanto eu tentava descobrir o defeito, quatro elementos mal encarados se aproximaram e me renderam.
        — Fica quietinho e não tenta reagir se quiser continuar vivo — disse um deles.
          Sem saber o que estava acontecendo, fui obrigado a seguir com eles cerca de duas centenas de metros até uma velha casa afastada da estrada. Durante a caminhada, passamos por um caboclo nativo da região montado em seu pangaré, que cortava caminho entre as fazendas para chegar até a estradinha. Ao perceber a aproximação do caboclo, os quatro elementos deram ordem para que parasse e descesse do pangaré. Assustado, ao ver-se sob a mira dos revólveres, o caboclo esporou o pangaré para fugir.
          — Péssima escolha — falou o chefe dos bandidos o qual chamavam de Betão.
          O coitado do caboclo foi executado por uma chuva de projéteis sem dó e nem piedade. Ainda empunhando as armas, que fumegavam devido os disparos, deram ordem para prosseguir deixando o corpo sem vida estendido no chão, semicoberto pelas folhas de uma touceira de unhal de gato.
           Ao chegarmos a casa, me deparei com mais três homens que faziam parte do bando. Estes estavam mantendo em cativeiro três mulheres e dois homens. Aos empurrões, fui jogado para dentro do cômodo para me juntar aos outros. Ninguém soube me dizer o que estava acontecendo.
          O cheiro forte da maconha penetrava no ambiente, onde nos encontrávamos. Gargalhadas se seguiam após falas arrastadas, enquanto um ou outro se vangloriava dos seus feitos.
          — Porra Betão! — Resmungava um deles.
          — Vamo reparti logo a grana. To a fim de me manda — Dizia.
          — Nada feito. Tamo junto e vamo fica junto até que os home amenizá o cerco. Tá querendo ser pego pra caguetá a gente?Tu sabe que caguete não tem perdão — respondeu o tal Betão.
           Durante a noite, um peão de fazenda estava passando pela estrada e desconfiou ao avistar a luz de lampião que vinha da casa onde estávamos. Assim que pegou o rumo da tapera foi rendido por dois bandidos que estavam de vigia. O peão tentou enfrentá-los, entrando em luta corporal. Acabou se dando mal e foi arrastado até a tapera pelos bandidos.
          — Tá aí ó! Tentou enfrenta a gente — falou um dos bandidos jogando no chão o peão já quase desfalecido de tanto apanhar.
          — Ahhh! Ta querendo enfrenta a gente? — Perguntou Betão levantando-o pelo braço.
            Mal conseguindo se manter de pé, o peão levantou os olhos para olhar para o Betão que havia se afastado uns dois passos dele.
             — Ninguém me encara desse jeito — disse Betão, enquanto sacou sua arma apontando-a para a testa do peão.
             Sem pestanejar, Betão puxou o gatilho duas vezes seguidas, dilacerando o crânio do pobre homem que tombou sem vida.
              — Tá maluco ou fumou demais? Todo esse barulho vai acaba entregando a gente — disse um dos bandidos.
              — Fica na tua, ou ta a fim de experimenta também. — respondeu Betão, visivelmente sob efeito de drogas.
              Eu, e algumas das pessoas que estávamos presos na casa, assistimos toda a barbárie através da janela, pela fresta da basculante. Estávamos apavorados. Uma das mulheres começou a chorar e gritar de desespero, e eu, tentei acalmá-la para que os bandidos não se irritassem conosco.
             — To me irritando. Trais essa gueluda que dou um tiro na cabeça dela — gritou Betão.
             Eu tapei a boca da mulher com minha mão. Um dos bandidos chegou até a porta e vendo que estávamos quietos, saiu novamente deixando a mulher. Aos poucos bandidos e prisioneiros foram se acalmando e o silencio tomou conta da tapera. 
            De madrugada, alguns dos prisioneiros dormiam e os bandidos sob efeito das drogas e bebidas estavam espalhados, dormindo pelos cantos da casa. Esperei pacientemente, e quando percebi que o guarda que nos cuidava também estava dormindo, levantei em silencio. Um dos homens que estava preso conosco percebeu minha intenção. Eu cochichei para ele que iria buscar ajuda.
             Esgueirando-me sobre as pessoas, sai do cômodo passando por cima do guarda, que continuava dormindo. Estava com meu coração acelerado, pois sabia que se me pegassem me matariam.  Quando cheguei do lado de fora da casa, não olhei para trás. Estava com medo que alguém tivesse me visto e estivesse com uma arma apontada para minhas costas.
             À medida que ia me afastando da casa comecei a caminhar mais depressa, até começar a correr. Eu corria o mais rápido que podia. Parecia que meu cérebro havia perdido o controle sobre minhas pernas.
            O dia estava clareando, quando passei por meu carro. Segui a estrada rumo à cidade, sempre correndo. Nem uma só alma à vista naqueles grotões. Cerca de meia hora mais tarde, um ronco de motor começou a se aproximar. Entre a dúvida, se eram os bandidos me seguindo, ou alguém que pudesse me ajudar, resolvi me esconder nos capoeirões da beira da estrada.
           Aos poucos, lenta e gradativamente, balançando devido a irregularidade da mal conservada estradinha, vi um velho ônibus se aproximar.
           Sai da capoeira um pouco atrasado, acenando para que o motorista parasse para que eu pudesse embarcar, mas não obtive êxito. Eu pude ver que ele me viu pelo retrovisor, mesmo assim seguiu viagem. Naquele momento fiquei desolado, mas o que eu não sabia é que ele estava tentando me livrar de entrar na mesma situação que ele e os passageiros se encontravam. O bando de assaltantes usava o ônibus para fugir, após se darem conta que eu havia conseguido escapar. Eles estavam com medo que eu denunciasse o local onde eles se escondiam e resolveram bater em retirada.
          Como eu não sabia disso, continuei minha fuga em direção da cidade a pé. A certa altura resolvi sair da estrada para encurtar as tantas voltas que ela fazia. No sobe e desce dos morros, com o ar faltando nos pulmões a ponto de quase chegar a exaustão, hora caminhando e hora me arrastando morro acima, alcancei o ultimo morro antes de chegar a cidade.
     Quando cheguei ao topo, vi ao longe o paredão de prédios que emolduravam a parte sul da cidade e uma incrível sensação percorreu cada centímetro do meu corpo.
             Graças a Deus, estou salvo — exclamei.

Rudimar Hauenstein


Nenhum comentário: