TRAGÉDIAS EGÍPCIAS
ETERNAMENTE
Eu
sou Ahmes, tenho quarenta anos de idade e sou agricultor egípcio. Estou vivendo
na época da XVIII dinastia do Império Novo. Tudo o que sonhava para mim era
trabalhar as terras das margens do rio Nilo para produzir alimentos para a
minha família, pai, mãe, irmãos e para meu grande faraó Amenófis IV e sua linda
rainha Nefertiti. O que mais queria era o amor de Tiy, filha do escriba Khamuy.
Durante os últimos anos aprendi o segredo dos aerógrafos. Irei deixar escrito
em uma pedra no lado interno da parede do templo do deus Aton na cidade de
Akhenaton a minha triste história para que ela permaneça para sempre.
Eu
estava com vinte anos de idade, quando encontrei Tiy pela primeira vez. Foi
durante a celebração que os sacerdotes elevavam júbilo a Aton, deus sol. Ela era linda! Seu brilho era maior que a mais
cintilante das estrelas. Seu encanto fez de mim seu escravo. Eu dedicaria a
minha vida por aquela mulher. Tiy olhou-me de longe, seguidamente, lançando
flechas de paixão por meio do olhar de seus grandes olhos negros. Impregnei-me
de coragem e fui ao seu encontro, mesmo sabendo que poderiam barrar minha
passagem, pois eu era um simples camponês e a minha presença não seria bem-vida
entre os sacerdotes, escribas e soldados. Eles são a elite do império, os
nobres que convivem com o grande faraó e permaneciam sentados em confortáveis
bancos num patamar acima da multidão. Mesmo assim, furtivamente, fui me
chegando ao local onde a nobreza acompanhava a solenidade. Os agricultores e os
escravos eram obrigados a se acotovelar em um canto, um tanto distante do majestoso
altar, para assistir a celebração.
Tiy percebeu a minha intenção e enviou ao meu encontro sua escrava Sitin,
descendente do reino dos hititas, conquistado durante o reinado do faraó Tutmés
III.
- Venho com uma mensagem da minha senhora,
disse a escrava me segurando discretamente pelo braço um pouco antes de chegar
aos degraus da escada que levavam ao nível superior.
A
atenção de todos estava voltada com o que acontecia no altar, fazendo com que
passássemos despercebidos.
- O que diz a tua senhora, perguntei
ansioso.
- Espere no final da tarde, na hora do
crepúsculo, do lado de fora da casa dos escribas, onde a sombra encobre a luz
da lua. Ela irá encontrá-lo nesse local.
Atendi
ao pedido de Tiy, e no escurecer daquele dia esperei por ela na parte dos
fundos da casa dos escribas protegido pela sombra do prédio, onde não poderia ser
visto por quem passasse.
O
nosso encontro foi mágico. O amor nos dominou com tanto vigor e profundidade
que a vida distante de Tiy não fazia mais sentido. No entanto sabíamos que nos
era proibido viver esse amor. O pai de Tiy prometera a jovem para um oficial do
exército do faraó. Ele era bem mais velho, experiente, austero e conhecido pela
brutalidade com que tratava seus inimigos. Mesmo assim trocamos juras de amor
eterno
Durante
dois anos nos encontrávamos longe dos olhares das pessoas em um local
fantástico fora da cidade. Existe uma elevação de pedras as margens do rio de
onde observávamos as águas passar rumo ao desconhecido. Ali jurávamos amor
eterno, enquanto saciávamos a sede de amor como se fossemos feitos da mesma
carne.
Desconfiado
com os constantes sumiços da filha, seu pai interrogou a escrava Sitin que
mediante ameaças foi obrigada a contar toda verdade. Nesse mesmo dia encontrei
Tiy pela última vez.
- Estou sendo vigiada e meu pai prometeu que
irá matá-lo se nos encontrarmos novamente, disse Tiy aos prantos.
- Minha amada. Não saberei viver distante de
você. Prefiro morrer que passar por tal desventura, falei abraçando minha amada
fortemente contra meu peito.
- Meu querido! Nada poderemos fazer contra a
vontade do meu pai e o oficial a quem fui prometida. Nosso amor está condenado
a dor da separação, respondeu ainda chorando.
- Serei eu a decidir o nosso futuro. Essa
noite nós fugiremos para o deserto para viver longe dos olhos desse povo.
Assim ficou acertado. Durante a noite, antes que Tiy viesse ao meu
encontro, seu pai descobriu sobre a nossa fuga. Esperei a noite toda no local
combinado e ela não apareceu. No dia seguinte, sem saber do acontecido,
enquanto trabalhava com a minha família na colheita do trigo, um grupo de
soldados comandados pelo oficial a quem Tiy foi prometida apareceu em nossas
terras. Disse o oficial:
- O faraó está convocando agricultores para
construir os templos de Aton na nova capital. Você e sua família serão levados
para Akhenaton.
Nada pude fazer contra a força dos soldados, e nesse mesmo dia partimos.
Com o decorrer dos anos, um a um dos meus familiares pereceu sob a mão poderosa
dos soldados e devido ao causticante trabalho, até que apenas eu restasse da
nossa família. O que me mantinha vivo era a esperança de reencontrar a minha
amada.
Certo dia apareceu na cidade um escravo que eu conheci em Tebas.
Ansioso, perguntei se sabia notícias sobre Tiy.
- Então não sabes o que ocorreu com a jovem?
- Não, nada sei. Ela está bem?
- A escrava Sitin me contou que Tiy ouviu
uma conversa entre seu pai e o oficial a quem foi prometida. Eles combinavam
que toda a tua família seria levada para a nova capital que o faraó está
construindo em homenagem ao deus Aton, e que nenhum de tua família deveria
retornar vivo para Tebas. Nesse mesmo dia, ela, em seu desespero, jogou-se da
elevação de pedras da margem do rio Nilo e seu corpo foi destroçado pelos
crocodilos. Ela disse para sua escrava que não suportaria viver sem o seu amor
e preferiu morrer a entregar-se nos braços do homem a quem foi prometida.
Essa foi a mais triste notícia que eu poderia receber. Amo tanto essa
mulher, que preferiria vê-la viva nos braços de outro. Agora perdi a razão de
continuar vivendo. Enfrentei tudo o que um homem poderia suportar pela
esperança e a certeza do amor de Tiy, no entanto agora tudo está acabado.
Desde
que o deus Aton foi elevado a deus único pelo faraó a minha vida passa por uma
grande desgraça. Eu não me esqueci dos deuses do Egito que me davam uma vida
boa e cheia de alegrias. Não sou merecedor da escuridão quando morrer. O deus
Osíris certamente me enviará para outra vida, na luz, no dia que me julgar e
colocar o meu coração na balança, pois tenho o coração leve dos homens de bem.
A vida na escuridão é para aqueles de coração pesado carregados de maldade.
Esta noite irei encontrar a nova vida, e se o deus Osíris me permitir, nela reencontrarei
a minha amada Tiy para enfim vivermos o nosso eterno amor.
Rudimar Hauenstein
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