segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

CONTO

                                       TRAGÉDIAS EGÍPCIAS

                                     ETERNAMENTE


    Eu sou Ahmes, tenho quarenta anos de idade e sou agricultor egípcio. Estou vivendo na época da XVIII dinastia do Império Novo. Tudo o que sonhava para mim era trabalhar as terras das margens do rio Nilo para produzir alimentos para a minha família, pai, mãe, irmãos e para meu grande faraó Amenófis IV e sua linda rainha Nefertiti. O que mais queria era o amor de Tiy, filha do escriba Khamuy. Durante os últimos anos aprendi o segredo dos aerógrafos. Irei deixar escrito em uma pedra no lado interno da parede do templo do deus Aton na cidade de Akhenaton a minha triste história para que ela permaneça para sempre.
   Eu estava com vinte anos de idade, quando encontrei Tiy pela primeira vez. Foi durante a celebração que os sacerdotes elevavam júbilo a Aton, deus sol.  Ela era linda! Seu brilho era maior que a mais cintilante das estrelas. Seu encanto fez de mim seu escravo. Eu dedicaria a minha vida por aquela mulher. Tiy olhou-me de longe, seguidamente, lançando flechas de paixão por meio do olhar de seus grandes olhos negros. Impregnei-me de coragem e fui ao seu encontro, mesmo sabendo que poderiam barrar minha passagem, pois eu era um simples camponês e a minha presença não seria bem-vida entre os sacerdotes, escribas e soldados. Eles são a elite do império, os nobres que convivem com o grande faraó e permaneciam sentados em confortáveis bancos num patamar acima da multidão. Mesmo assim, furtivamente, fui me chegando ao local onde a nobreza acompanhava a solenidade. Os agricultores e os escravos eram obrigados a se acotovelar em um canto, um tanto distante do majestoso altar, para assistir a celebração.
    Tiy percebeu a minha intenção e enviou ao meu encontro sua escrava Sitin, descendente do reino dos hititas, conquistado durante o reinado do faraó Tutmés III.
- Venho com uma mensagem da minha senhora, disse a escrava me segurando discretamente pelo braço um pouco antes de chegar aos degraus da escada que levavam ao nível superior.
    A atenção de todos estava voltada com o que acontecia no altar, fazendo com que passássemos despercebidos.
- O que diz a tua senhora, perguntei ansioso.
- Espere no final da tarde, na hora do crepúsculo, do lado de fora da casa dos escribas, onde a sombra encobre a luz da lua. Ela irá encontrá-lo nesse local.
     Atendi ao pedido de Tiy, e no escurecer daquele dia esperei por ela na parte dos fundos da casa dos escribas protegido pela sombra do prédio, onde não poderia ser visto por quem passasse.
    O nosso encontro foi mágico. O amor nos dominou com tanto vigor e profundidade que a vida distante de Tiy não fazia mais sentido. No entanto sabíamos que nos era proibido viver esse amor. O pai de Tiy prometera a jovem para um oficial do exército do faraó. Ele era bem mais velho, experiente, austero e conhecido pela brutalidade com que tratava seus inimigos. Mesmo assim trocamos juras de amor eterno       
    Durante dois anos nos encontrávamos longe dos olhares das pessoas em um local fantástico fora da cidade. Existe uma elevação de pedras as margens do rio de onde observávamos as águas passar rumo ao desconhecido. Ali jurávamos amor eterno, enquanto saciávamos a sede de amor como se fossemos feitos da mesma carne.
     Desconfiado com os constantes sumiços da filha, seu pai interrogou a escrava Sitin que mediante ameaças foi obrigada a contar toda verdade. Nesse mesmo dia encontrei Tiy pela última vez.
- Estou sendo vigiada e meu pai prometeu que irá matá-lo se nos encontrarmos novamente, disse Tiy aos prantos.
- Minha amada. Não saberei viver distante de você. Prefiro morrer que passar por tal desventura, falei abraçando minha amada fortemente contra meu peito.
- Meu querido! Nada poderemos fazer contra a vontade do meu pai e o oficial a quem fui prometida. Nosso amor está condenado a dor da separação, respondeu ainda chorando.
- Serei eu a decidir o nosso futuro. Essa noite nós fugiremos para o deserto para viver longe dos olhos desse povo.
    Assim ficou acertado. Durante a noite, antes que Tiy viesse ao meu encontro, seu pai descobriu sobre a nossa fuga. Esperei a noite toda no local combinado e ela não apareceu. No dia seguinte, sem saber do acontecido, enquanto trabalhava com a minha família na colheita do trigo, um grupo de soldados comandados pelo oficial a quem Tiy foi prometida apareceu em nossas terras. Disse o oficial:
- O faraó está convocando agricultores para construir os templos de Aton na nova capital. Você e sua família serão levados para Akhenaton.
    Nada pude fazer contra a força dos soldados, e nesse mesmo dia partimos. Com o decorrer dos anos, um a um dos meus familiares pereceu sob a mão poderosa dos soldados e devido ao causticante trabalho, até que apenas eu restasse da nossa família. O que me mantinha vivo era a esperança de reencontrar a minha amada.
     Certo dia apareceu na cidade um escravo que eu conheci em Tebas. Ansioso, perguntei se sabia notícias sobre Tiy.
- Então não sabes o que ocorreu com a jovem?
- Não, nada sei. Ela está bem?
- A escrava Sitin me contou que Tiy ouviu uma conversa entre seu pai e o oficial a quem foi prometida. Eles combinavam que toda a tua família seria levada para a nova capital que o faraó está construindo em homenagem ao deus Aton, e que nenhum de tua família deveria retornar vivo para Tebas. Nesse mesmo dia, ela, em seu desespero, jogou-se da elevação de pedras da margem do rio Nilo e seu corpo foi destroçado pelos crocodilos. Ela disse para sua escrava que não suportaria viver sem o seu amor e preferiu morrer a entregar-se nos braços do homem a quem foi prometida.
    Essa foi a mais triste notícia que eu poderia receber. Amo tanto essa mulher, que preferiria vê-la viva nos braços de outro. Agora perdi a razão de continuar vivendo. Enfrentei tudo o que um homem poderia suportar pela esperança e a certeza do amor de Tiy, no entanto agora tudo está acabado.
    Desde que o deus Aton foi elevado a deus único pelo faraó a minha vida passa por uma grande desgraça. Eu não me esqueci dos deuses do Egito que me davam uma vida boa e cheia de alegrias. Não sou merecedor da escuridão quando morrer. O deus Osíris certamente me enviará para outra vida, na luz, no dia que me julgar e colocar o meu coração na balança, pois tenho o coração leve dos homens de bem. A vida na escuridão é para aqueles de coração pesado carregados de maldade. Esta noite irei encontrar a nova vida, e se o deus Osíris me permitir, nela reencontrarei a minha amada Tiy para enfim vivermos o nosso eterno amor.

                              Rudimar Hauenstein

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