sábado, 14 de janeiro de 2017

CONTO II

   
INOCÊNCIA

      Quando a vó de Alice morreu, ela se escondeu no porão. A menina estava confusa por não saber ao certo o que significava morrer. Tudo o que sabia foi que sua mamãe chorava muito e que um monte de gente com jeito triste veio se despedir da vó Maria, falecida repentinamente.
   Alice tinha cinco anos de idade. Costumava dizer que depois de seus pais, de quem ela mais gostava era da vó Maria e da Xuxa, na época começando na TV como apresentadora de programas infantis.
   Sua vó morava no interior e Alice esperava ansiosa os finais de semana para ir até a casa dela. No domingo anterior ao falecimento, estava tudo programado para que seguissem até a casa da vó. No entanto um imprevisto no trabalho do pai impediu a viagem. No dia seguinte vovó ligou para mãe de Alice, perguntando o que acontecera por não terem ido no final de semana conforme combinado. No mesmo telefonema ela falou com a menina:
- Meu amorzinho! Estou morrendo de saudade de você.
- Oi vovó! Papai disse que domingo a gente vai na tua casa. Beijo.
   A menina tinha muitas bonecas, bichinhos de pelúcia, mas entre todos nunca largava um urso de pelúcia azul, vestido com um colete preto e uma gravata borboleta branca.
   Como sempre, ela estava agarrada com seu urso, mas diferente das outras vezes, no dia do velório Alice não corria e brincava. Triste, resolveu se esconder num canto do porão.  Olhou para seu inseparável amigo, segurando-o firme entre suas mãos e disse:
- Cê viu Pompi? O que a vovó ta fazendo? Viu? Ela foi dormir naquela cama estranha e todos ficam olhando pra ela e chorando. Cê viu?
    O urso respondeu:
- Tua mãe disse que ela morreu.
- Morreu? Mas o que é morrer? Ela vai embora pra sempre?
- Foi o que tua mãe disse. Que ela foi morar com o menino Jesus.
- Onde é esse lugar que mora o menino Jesus? Ela sabe onde é?
- No céu Alice.
- Eu não quero que ela vá morar com o menino Jesus no céu. Ela é minha vovó. O menino Jesus já tem uma vovó pra ele!.. Esta é minha!..
   Ela falava com voz embargada, segurando o choro. De seus olhinhos gotinhas de cristal brotavam a dor da inocência.
- Não adianta Alice. Todas as pessoas um dia irão embora.
- Mamãe e papai também vão morrer?
- Eles também. Foi o que sua mamãe disse.
- Eu vou ficar sozinha? Quem vai cuidar de mim? Você cuida de mim, Pompi?
- Eu cuido de você, Alice.
- Promete?
- Prometo minha querida!..
- To com medo. Ta ficando escuro.
- Vamos nos esconder no armário de ferramentas. Lá estaremos protegidos. Mas precisamos ficar bem quietos, respondeu seu amigo.
- Sim! No armário Pompi. Lá os monstros não pegam a gente!
   Enquanto isso a mãe de Alice sentiu a falta da menina. Andava de um lado para o outro da casa tentando encontrá-la.
- Alice minha filha! Onde você está?
   Ela percorreu todos os aposentos procurando pela filha, mas em vão.   Quando viu que não conseguia encontrara a menina, resolveu pedir ajuda para alguns parentes e avisou o marido. Saíram todos atrás de Alice vasculhando todos arredores da casa. No açude que ficava nos fundos da propriedade e todos os cômodos novamente, verificando cada lugar onde ela poderia estar.
- Alice minha filha. Onde você está? Gritava o pai, quase aos prantos enquanto se dirigia até o açude.
   Ele temia pelo pior. Suas pernas pareciam não tocar o chão, tal o pavor que o dominava. Felizmente Alice não estava lá. Em seguida retornou e foi ao porão. Alice ouviu os passos fortes de alguém descendo os degraus de madeira e imaginou que era algum monstro querendo pegá-la. Continuava em silencio, com a mãozinha tapou a boca de Pompi para que ele não falasse. Devido a ansiedade e estado nervoso, o pai esqueceu-se de procurar no armário, mas ele sabia que Alice tinha medo do porão e só desceu por desencargo de consciência.
   Já passava das nove horas da noite e o desespero havia tomado conta de todos no velório. Aliás, o corpo de vó Maria jazia abandonado na grande sala da casa, pois todos estavam preocupados a procura de Alice. Momentos depois a porta que dava para o porão se abriu e a menina apareceu segurando seu urso de pelúcia. A mãe foi correndo ao seu encontro agarrando a filha nos braços que disse:
- Onde você estava minha Alice? Porque se escondeu? Quanto medo mamãe sentiu de não te encontrar mais!..
   Chorando, a menina pegou o rosto de sua mãe entre as mãos e olhando para ela falou:
- Mamãe, tu sabia que saudade mata a gente?

                                                    Rudimar Hauenstein 




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